O Amanhecer das Sombras
O Crepúsculo das Luzes






"E foram os Seus Filhos que, sitiados no confronto entre os Seus Medos demoníacos e angelicais Virtudes, previram no Amanhecer das Sombras e no Crepúsculo das Luzes o meio de balançar o Seu inquieto Espírito Divino."

Fragmento das
Escrituras Sagradas



   







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Friday, September 05, 2003
Prólogo

A frágil barcaça avançava devagar, deslizando suavemente sobre a superfície espelhada do oceano, um ponto na infinidade do horizonte. Sem se definir como realidade ou ilusão, os três vultos que se distinguiam na embarcação pareciam não ser mais que três sombras, esquecidas assombrações da história do mundo. Um lampião preso na proa da gôndola fornecia apenas a luz suficiente para distinguir que os três vultos se cobriam com capas de linho negro, sem que nenhum dos seus rostos se vislumbrasse ou se diferenciasse da escuridão da noite.

As sombras que se abrigavam na infinidade da praia, escondidas da ténue luz que irradiava do batel, tinham como companheiro Johad. Os olhos deste fitavam a débil barcaça, sem dela se desviarem nem por um segundo. A embarcação avançava devagar, deslizando lentamente sobre as águas calmas do oceano, ficando mais próxima da praia a cada momento.

Por fim, a proa do bote beijou ternamente a superfície arenosa da praia, com um pequeno solavanco como consequência. Num gesto repentino, um dos vultos levantou-se bruscamente, saindo do interior da embarcação e empurrando para trás o capelo que lhe ocultara a face. Era um homem alto e corpulento, não aparentando ter mais de cinquenta e cinco anos de idade no rosto já marcado por rugas. Os cabelos, atados num rabo-de-cavalo, mostravam um pigmento já bem próximo da cor prateada da cinza, provavelmente fruto de uma existência sofrida…

Johad olhou o homem e sorriu. Num movimento terno, esporeou a sua montada com o seu calcanhar e incitou o cavalo a avançar até ao homem. Este desembainhou a lâmina da espada, apanhado desprevenido pelo galopar do cavalo, e colocou-se em posição de ripostar o ataque.

— Tem calma, velho amigo! — gritou Johad, obrigando, com um puxão nas rédeas, a que o seu cavalo parasse. — Estou assim tão mudado para que não me reconheças?

Girando a bacia num só impulso, Johad desceu da sua montada, aterrando no chão arenoso suavemente. O olhar enegrecido de Johad cruzou-se com os olhos negros do homem, barreira invisível erguendo-se entre eles. Por fim, ambos ergueram os braços, esboçando um enorme abraço de amizade, o reencontro de dois velhos amigos.

— Jin-Odin, velho guerreiro, não envelheceste uma só ruga — comentou Johad, mirando o amigo com admiração.

— Tenho pena que não possa dizer o mesmo de ti, Johad’El! — respondeu o guerreiro, um sorriso esboçando-lhe o rosto. Um momento passado e o sorriso desapareceu, cedendo lugar a uma expressão grave. — O que me traz de novo a esta terra amaldiçoada não é agradável. É com pena que te vejo envolvido em tudo isto, graças a mim…

Ainda com a mão esquerda segurando as rédeas do seu cavalo e colocando a mão livre no ombro do amigo num sinal de confiança, Johad retribuiu o sorrir, dizendo sem que quaisquer palavras fossem ditas que não se importava, que bastava um sinal do amigo para partirem…

— Obrigado…! — agradeceu Jin-Odin. Depois, virando-se para o batel, assobiou, fazendo com que um dos outros vultos se levantasse, puxando o capuz que lhe ocultara a face, como o velho guerreiro fizera anteriormente.

Da penumbra proporcionada pelo capelo irrompeu um rosto jovem, muito embora as suas feições fossem indistintas devido à chama fraca do lampião. Jin-Odin, ligeiramente mais alto que o rapaz, chamou até si, revelando o seu nome: Niedros. Aquele nome fez Johad perder-se na vastidão das suas memórias, relembrando morte, sangue, guerra, destruição… Ali estava a sombra adulta de um passado que ele aprendera a esquecer, mas a sua existência obrigava-o a confrontar esses fantasmas uma vez mais.

— Estamos a ser observados… — disse o rapaz, num murmurar quase imperceptível. A sua mão destra encontrou a pega do punhal, quase sem que o próprio Niedros se apercebesse do seu movimento.

— O rapaz tem razão, Jin-Odin. — A confirmação saída dos lábios carnudos de Johad não admirou o experiente guerreiro a quem a frase se destinava, também ele desperto para o que o rodeava. Por fim, a negrura dos olhos de Jin-Odin encontraram aquilo que procuravam: a ramagem seca de uma velha árvore escondia o contemplar sinistro de um corvo. Não seria mais do que uma ave aos olhos mais desatentos, uma realidade indiscutível. Mas realidades não são senão fantasias imaginadas por aqueles que se recusam a pensar…

— Uma oportunidade! — admoestou Jin-Odin a Niedros, olhando-o nos olhos. Foi um só momento, mas num só momento os seus pensamentos cruzaram-se, sem uma palavra dita ou um toque sentido. Ambos sabiam o que iria acontecer, um só gesto desenhando um desfecho.

Bastou um movimento para que a lâmina iniciasse o seu voo, cortando o ar com a rapidez que a maioria das montadas jamais iria alcançar. Com o grasnar da ave negra, o pigmento que a todos os seres vivos corre nas veias, realizou uma viagem final, fluindo triste e suavemente para uma poça escarlate, onde uma pena negra, deslizando pelo ar com lentidão, aterrou, com as suas finíssimas barbas negras a deixarem-se invadir por sangue.

— Que os Deuses deixem repousar a sua alma nos seus jardins! — desejou Johad, levando os dois braços ao peito, cruzando-os, num gesto profundo e religioso. Depois, encaminhando a sua sombra para o local onde a ave aterrara, cavou com as mãos vazias uma pequena cova, deixando o corpo do corvo nesse túmulo improvisado, uma lágrima sua culminando a obra.

Com um estalido provocado pela língua a embater no céu-da-boca, Johad chamou o cavalo para perto de si, olhando os dois guerreiros com desprezo, em especial para o mais jovem.

— Os outros cavalos estão numa clareira aqui perto — declarou secamente. O seu olhar de cor esverdeada dera lugar a dois olhos cinzentos, ardendo em raiva contida. — Sigam-me!

Entreolhando-se admirados, os guerreiros seguiram a montada de Johad, sem que este uma palavra proferisse. Ao fim de poucos minutos, alcançaram a clareira onde dois garanhões os esperavam, pastando na relva húmida. Não demorou muito para que os três partissem calados para um destino ainda escondido por brumas divinas…

Os primeiros raios da madrugada já fulgiam no céu quando o terceiro vulto da barcaça, já livre de sombras e escuridão, se ergueu, abrindo longamente as asas negras, espreguiçando-se por um sono prolongado. Apenas um movimento brusco bastou para que, depois de olhar em redor com uma total descontracção, a figura levantasse voo, perdendo-se na infinidade ténue do horizonte. A quem lhe perguntasse sobre aquela estranha figura, Jin-Odin diria apenas:

— Digamos que a sua missão é diferente daquela a que todos estamos condenados…


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Tuesday, December 09, 2003
1.º Capítulo — Das sombras de um Império

Durante a Primavera da existência, tudo aparenta ser eterno, imutável… Infelizmente, tudo o que nasce está destinado a morrer e tudo o que morre está fadado a nascer novamente. Uma vida nunca é eterna, está sempre sujeita à morte e ao seu renascimento permanente. Porém, a vontade divina contraria as suas próprias leis, por vezes. Ele é um exemplo disso…

As diminutas chamas dos lampiões alumiavam as ruas, transbordando de sombras e ruínas como se há muito tivessem sido abandonadas. O aroma adocicado do sangue coabitava com o perfume acre da morte, a mesma simbiose que se sorve numa planície que acaba de ser palco da última batalha de uma guerra da qual só poderão sair os vitoriosos e os mortos. E, ocultos nos becos mais enevoados, os salteadores que perpetuarão essa fragrância, usando apenas um punhal o mais ameaçador possível.

Ele sentia-se confortável naquele local. Naquela atmosfera sufocante, as suas memórias de infância voltavam a ganhar forma, os detalhes novamente relembrados, as histórias revividas uma vez mais. Mas a sua vida fora feita de mágoa e sofrimento e nem a sua infância escapara desse destino: aquele lugar também lhe perturbava o espírito. Contudo, o tempo escasseava e muito havia a fazer; não era altura de relembrar o passado nem sequer de lamentá-lo.

A noite trouxera consigo nevoeiro, uma bruma envolvente que conferia às ruas um aspecto estranho e assustador. Em silêncio, as famílias aproximavam-se das lareiras de suas casas e lá aguardavam pelo ancião da casa, que contaria fábulas sobre monstros há muito desaparecidos até que os membros mais pequenos do grupo adormecessem, permitindo que o esquecimento afastasse o seu pensamento dos horrores que se passavam na penumbra noctívaga.

Ele continuava a andar, movendo-se por aqueles afluentes das avenidas da cidade como se por ali sempre tivesse caminhado, muito embora fosse a primeira vez que calcorreava aqueles becos. Ele nascera longe dali, muito embora aquele sítio lhe fizesse lembrar a sua velha casa, incendiada. Uma vez mais, tentou afastar essas memórias do seu discernimento, renegando-as a uma prisão de onde ele as libertaria mais tarde, mesmo que não o quisesse fazer, quando os seus sonhos pegassem nas correntes por ele impostas e quebrassem cada um dos seus anéis.

Penetrar naquelas artérias cancerosas da cidadela era como iniciar uma viagem à essência corrupta da humanidade: prostitutas vendendo o corpo enquanto vagabundos sucumbiam, um último suspiro suplicando por alimento e agasalho. A podridão humana era consentida e isso repugnava-o imensamente. Vivera o tempo suficiente para relembrar tempos de glória, mas o tempo transformara essa glória numa decadência atroz. Mas, em breve, isso mudaria…

A esfera lunar caminhava bem alta na altura infindável do céu quando ele chegou ao local do encontro. Estava diante do que parecia uma mansão abandonada, provavelmente o último vestígio de um passado mais faustoso daquela zona da cidade. Os vitrais da moradia estavam transformados em estilhaços, alvo de brincadeiras infantis e de sucessivos assaltos, e enormes trepadeiras cobriam as paredes da casa, perfurando por qualquer abertura que encontrassem. Uma placa de carvalho amplamente danificada fora outrora a entrada da vivenda, permitindo a chegada a um grande corredor, no qual desaguavam todas as outras divisões, e uma enorme escadaria, elevando-se até ao andar superior. Todas as portas dos inúmeros salões, escritórios, bibliotecas e quartos haviam sido furtadas e, no seu lugar, existiam apenas espaços vazios. As sombras cobriam a mansão como se a devorassem sofregamente, com exclusão de um quarto, onde uma minúscula chama dançava sinuosamente, tal como havia sido prometido.

Ele apressou-se a entrar no interior da enorme casa, dirigindo-se para a divisão iluminada. Quando chegou junto da ombreira da porta, permitiu a si mesmo um momento de hesitação: mais uma pequena passada e nada poderia ser emendado, tudo teria de prosseguir como havia sido planeado, não haveria arrependimento possível… Ainda assim, inspirando suavemente como se suplicando coragem ou demência à atmosfera sufocante que o envolvia, ele decidiu avançar para o fim, finalmente avançar para o fim…

Um som quase imperceptível despertou os seus sentidos e fê-lo regressar à realidade. O quarto estava envolto numa semi-obscuridade pouco reveladora. Abundavam as sombras sem forma definida ou definitiva, em parte devido ao constante oscilar da chama brilhante de uma vela de cera azul, mas apenas um desses vultos pareceu prender a atenção dele.

— Receava que não viésseis… — sussurrou essa silhueta, caminhando na direcção dele. A penumbra envolvia-lhe o rosto como se de uma túnica de sombras se tratasse e, contudo, ele sabia quem era aquela figura que surgia assim das trevas como um assassino experiente.

— Fiz-vos uma promessa, Senador, e, acrediteis ou não, cumpro sempre as promessas que faço! — redarguiu ele, um suave trago cáustico deslizando na sua voz e uma promessa por cumprir erguendo-se das profundezas da memória.

— Chamar-me Senador nesta altura pode ser arriscado…! — suspirou o vulto espectral, o timbre da sua voz vibrando suavemente em hesitação. — E não nos podemos dar ao luxo de correr riscos desnecessários numa altura como esta!

— Concordo… — murmurou ele, como se sibilasse. — Contudo, as tribos bárbaras do Norte do Império estão preparadas para a invasão… Aguardam pela minha permissão para libertar um fogo purgador sobre o Éden! Neste momento, seria impossível a qualquer Milícia Imperial travar a investida dos bárbaros…

Uma suave melodia começara a ecoar nas paredes arruinadas da habitação: as minúsculas gotas de chuva precipitavam-se da sua morada alada, num último salto no abismo do mundo, um salto para a morte. Todavia, esta carnificina suicida passava completamente despercebida aos dois homens, ambos fitando-se com o olhar gélido do desprezo e da indiferença. Nenhum dos dois parecia querer ceder face ao outro, muito embora o rosto amedrontado do Senador o traísse e revelasse o seu profundo horror pelos ventos de mudança que se aproximavam.

— E não é possível que as Milícias se juntem? — interrompeu o Senador, vacilante. A sua face, descoberta parcamente pela tímida chama da vela, esboçava uma ligeira expressão de medo, permanentemente em busca de um refúgio num semblante rígido e sereno. — Isto é, as Milícias podem unir-se e rechaçar os bárbaros, ou não?

— Era impossível unir as Milícias nesta altura, mesmo que todos os legionários tivessem uma montada ágil como a brisa! O maior risco que enfrentamos é a Guarda Imperial, Lorde Malegor! — prosseguiu ele, serenamente. — Compreendeis que o Príncipe Herdeiro usufrui excessivo poder junto dos Imperiais…? É indispensável retirar o Príncipe do vosso caminho, principalmente agora que a guerra se prepara para explodir e que o Imperador se prepara para abandonar o mundo dos vivos…

— Pedis-me que traia o meu país?!

— E vós pedis-me o trono do Éden, deste gigantesco Império! Quem estará a exagerar na ousadia do pedido, Senador Malegor? — retorquiu ele, uma chama agreste substituindo-lhe o olhar. — Agora, deixai de vos queixardes e preparai-vos: os ventos do norte trarão o aroma da morte e da destruição! — E, caminhando lentamente para o que outrora fora uma janela, a sombra humana que se erguia diante do Senador soltou das suas mãos níveas a penumbra da plumagem de um corvo, deixando-o voar em direcção a norte, fugindo da noite em Amarna, a grandiosa e, simultaneamente, pervertida capital do Império do Éden. — E que as Senhoras nos perdoem…!

 

A meretriz prostrava-se deitada no leito em dossel, vestindo tecidos de nudez provocante e de beleza sufocante. Um suave sorriso delineava-lhe o marfim da face enquanto o olhar terno da rapariga se perdia num nada sem vida. Uma delicada linha de sangue fluía livremente no peito da jovem, gotejando numa catarata rubra para os lençóis caiados a branco. E, sem que o sorriso da bela mulher se apagasse do seu rosto pálido, a morte perpetuava-lhe um sofrimento amargo, enquanto lhe devorava a existência com uma expressão de deleite. Afastado dela um pouco, Malegor desenhava sobre o tecido retesado de uma tela, o lápis de pastel afagando o quadro com uma doçura perspicaz, um suave requinte de satisfação monstruosa.

— Como é graciosa a morte…! — sussurrou para si o Senador, provocando um calafrio agradável na sua espinha dorsal. Como era belo aquele corpo, despido de qualquer vergonha fingida e desnudado da chama viva que o nutrira durante a vida. Como era belo… O olhar de Malegor era uma estrela cintilante, faiscando com um estranho prazer macabro.

A pequena divisão não era mais que um minúsculo estúdio de pintura: as paredes cobertas de telas de cores frias e claustrofóbicas, uma cama em dossel arrumada a um canto, quatro ou mais tripés dispersos ao acaso no quarto e, sobre uma velha secretária fabricada em madeira de faia, cinco pequenas caixas de metal, cada uma contendo um pigmento de cor diferente. O espaço era acanhado e irradiava dele uma sensação desconfortável, uma brisa gelada eriçando a pele como a aragem glacial de uma sepultura. Porém, era ali que Malegor passava grande parte do seu dia, excepto quando o Cúria se reunia, como naquela manhã…

Amanhecia em Amarna. Suavemente, os raios solares penetravam nas decrépitas vielas da cidadela com uma fome por escuridão apenas comparável à da fera agreste após um rigoroso período invernal. A penumbra venenosa era substituída lentamente pela luz vigorosa e fresca, assim como o silêncio e a vivência corrupta davam lugar à agitação e à aparência grandiosa e bela. Os sorrisos reluziam em máscaras de felicidade quando, ocultos pela noite, choravam as lágrimas num rosto verdadeiro. E todas as faces da realidade que haviam sido mostradas nas brumas inebriantes das trevas escondiam-se agora em rostos chocados e expressões de casto horror e aversão.

Edificada pela força prodigiosa dos Homens de outrora, Amarna erguia-se nas encostas de uma amena colina cercada de pastagens verdes e de pomares recheados de frutos sumarentos, protegida pelas encostas de uma gigantesca cordilheira de montanhas a montante e a sul; para ocidente, uma extensa planície calcorreada por inúmeros ribeiros estendia-se até onde a olhar pudesse alcançar e, para norte, bosques infindáveis repletos de vida forneciam uma admirável visão aos que dela pudessem usufruir. No pináculo do outeiro, o Palácio Imperial ascendia da terra como uma coroa de prata e marfim, parecendo um farol de luz e esplendor embutido na frieza crua da rocha. E desde esta maravilha saída de mãos mortais descia toda a cidade até às muralhas exteriores de tijolos de pedra, penedos esculpidos com formas perfeitas capazes de resistir a qualquer força, fosse ela humana ou temporal. Porém, esta era a Amarna dos tempos modernos, conservando a beleza ofuscante do passado, mas demasiadamente podre para com ela poder rivalizar…

Um punho firme bateu duas vezes à porta do pequeno estúdio, acordando Malegor do seu momento artístico.

— Dei ordens para não ser incomodado!

— Mas, Senhor, estais atrasado para a audiência desta manhã no Cúria… — retorquiu um criado do outro lado da portada, firmemente. — Não vos podeis demorar!

— Manda preparar um banho quente e a túnica senatorial… E desfaz-te de todo o lixo que encontrares aqui no estúdio! — ordenou Malegor, lançando um olhar brusco à prostituta. Os passos do criado denunciaram rapidamente a sua ausência junto das portas, permitindo ao Senador um último momento a sós com o seu génio inspirador daquela noite. Aproximou-se da rapariga morta lentamente e, com um ligeiro movimento, deu-lhe um beijo nos lábios frios e hirtos. — Eras bonita, meretriz fétida! Agora, serás eternamente bela naquela tela! — disse ele, soltando uma gargalhada arrepiante e abandonando o estúdio com pressa.

O estúdio dava para um enorme corredor, bastante iluminado. À esquerda, inúmeras portas e uma parede pintada numa cor amarelada, quase como se as paredes colhessem para dentro de si a luz solar que entreva pelas infindáveis janelas no lado direito do corredor. Após cinco portas, o corredor curvava-se subitamente para a esquerda e prolongava-se por mais cinco ou mais portas, desembocando, por fim, numa série de escadas em espiral. Foi através delas que Malegor chegou ao andar térreo da mansão, entrando rapidamente por uma porta que se abria contiguamente à escadaria.

Uma nuvem de vapor abateu-se sobre ele, vinda da divisão. Depois da habituação natural dos olhos aquele ambiente, era possível ver facilmente uma divisão recoberta de azulejos. Ao fundo, as paredes da sauna avançavam mais do que seria necessário, formando três ou quatro bancos de pedra e, no meio da divisão, uma banheira enchera-se de água fumegante enquanto um criado esperava pelo seu mestre, erguendo-se imóvel junto da chaleira escaldante.

— Talath? Estás aqui? — perguntou Malegor, um sorriso de admiração desenhado no seu rosto. O seu olhar conduzia a um banco de pedra vazio, perdendo-se como numa alucinação.

— Senhor, desculpai-me, mas o meu nome não é Talath — respondeu o escravo, a sua voz tremendo com medo.

— Não estava a falar contigo, verme impuro! Como ousas sequer dirigir-me a palavra, sua criatura nojenta? Desaparece daqui! — gritou o Senador, fulminando o escravo com o olhar. Sem demorar segundos que fosse, o lacaio abandonou a sala, deixando o seu mestre sozinho.

Serenamente, Malegor começou a desembaraçar-se dos trajes que trazia vestidos: primeiro as túnicas pesadas com que deambulava pela casa, depois um hábito que vestia junto à pele e, por fim, a roupa interior. Abandonando toda a roupa para o piso empedrado, deixou-se depois afundar suavemente nas águas límpidas e aconchegantes da banheira.

— Não me visitavas há muito tempo, Talath. A tua chegada é, no mínimo, uma surpresa muito agradável — continuou Malegor, dialogando com o nada. E, como se obtivesse a sua resposta desse vazio, assim se prolongou a conversa, durante vinte minutos, ao fim dos quais um Senador de semblante nobre, altivo e ambicioso abandonava as águas, pintadas de muitas cores, do banho.

Os cabelos acinzentados caíam-lhe ainda molhados sobre a testa, quando deixou a sala. As roupas haviam mudado de um tom púrpura para a dualidade do preto e branco numa extensa túnica, dotada de uma cauda gigantesca. Vindas do nada quando ele saiu do quarto de banho, cinco raparigas, todas elas não ultrapassando os dezasseis anos de idade, pegaram avidamente no apêndice do manto enquanto o seu senhor avançava pela casa. Por fim, após vaguear pela mansão infantilmente, Malegor dirigiu-se para a rua, onde o esperava um luxuoso coche.

— Senhor, qual o destino que desejais que tomemos?

— Para a Cúria, cocheiro — respondeu o Senador, entrando para o câmara da carruagem. As rapariguinhas desapareceram após fecharem a portinhola, colocando a sua preciosa carga no chão aveludado da berlinda.

Um ligeiro puxão nas rédeas dos cavalos fizeram o coche avançar, batendo com os cascos nos caminhos calcetados num suave trote. A carruagem avançou pela cidadela, escapando aos clamores do mercado e aos sussurros da desprezível intriga. Porém, a estrada que unia a casa de Malegor com a Cúria não era alongada em demasia e, em pouco mais de cinco minutos, o coche entrava na Praça Senatorial.

Um gigantesco círculo de colunas erguia-se do chão como se inúmeros braços sem mão se elevassem para o céu, buscando algo inatingível. No centro da colossal praça, a estátua de um anjo, o seu corpo de pedra revestido por uma armadura da rocha que o moldava e as suas asas abertas em toda a sua envergadura. A norte, o anel de colunas rachava-se, dando origem a um longo átrio descoberto, também ele rodeado por pilares erguendo-se infinitos para o céu. Por fim, uma suave escadaria de lajes negras desembocava na entrada de um luxuoso palacete, a que os Imperiais davam o nome de Cúria.

Malegor lançou um olhar gelado ao edifício antes do coche parar junto à escadaria. Vários escravos surgiram do nada, abrindo a porta da carruagem e ajudando o Senador a descer desta com uma cortesia serviçal. Contudo, não receberam mais que um esgar de desprezo porque a mente de Malegor esvoaçava já na direcção do hemiciclo onde os Senadores se reuniam. Por certo as notícias sobre a invasão bárbara haviam já chegado à Cúria e a desordem devia reinar nos espíritos dos Senadores, do Príncipe Herdeiro e do próprio Imperador e, imaginando os semblantes carregados dos seus pares, soltou uma gargalhada enquanto subia as escadas.

O interior do edifício era um mundo infindável de corredores, mas, tal como todos os rios desaguam no mar, também todas a galerias tinham como foz o Salão Senatorial. Duas portas colossais serviam de barragem à permanente afluência de Senadores, sendo defendidas pelos Imperiais, dois no seu total. Ambos trajavam o uniforme cerimonial da Guarda Imperial: uma túnica larga tingida de preto, uma couraça peitoral negra com um leão prateado incrustado na mesma, um cinto negro com uma fivela de prata e uma bainha de madeira fumada pendendo na anca direita, brilhando; um gládio com punho de madeira era apenas uma arma cerimonial e jazia na bainha prateada, sempre pronta para ser empunhada; para além disso, os Imperiais ainda usavam as mãos cobertas por luvas de cabedal negro e botas da mesma cor e tecido.

Quando irrompeu pelo Salão Senatorial, Malegor deparou-se com aquilo que já imaginara: caos. Inúmeros Senadores deambulavam pelas tribunas como se estivessem perdidos e os que não se comportavam de maneira estranha tinham o seu rosto marcado pela preocupação e até pelo medo. Ao contrário do que era usual, cerca de duas dezenas de Imperiais guardavam as entradas secundárias do Salão e no seu olhar podia ler-se em letras perfeitamente desenhadas um receio e temor pouco naturais. E, jazendo num trono sumptuoso no alto da sala, um velho Imperador olhava para o espectáculo que se erguia diante dos seus olhos em pânico.

— Perdoai-me o atraso, meus Senhores — disse Malegor, deixando a sua língua saborear cada aroma adoçado do que os seus olhos lhe transmitiam. — Terei perdido algo importante?

— Para além da vossa sanidade, Senador? — ergueu-se uma voz dentre a multidão, o seu grito despertando as atenções de todos. Os olhares do Salão prenderam-se numa figura nobre que se destacava rodeada pelos Senadores e Imperiais, as suas pupilas acinzentadas faiscando com determinação. — Nada que não possa ser resolvido!

Malegor não pareceu perturbado pela intrepidez do rapaz. Pelo contrário, o seu semblante permaneceu calmo, deixando até soltar uma gargalhada.

— Fazeis-me rir, Majestade! — confessou, ainda com um sorriso estampado no rosto. Os outros Senadores, observando a cena atentamente, cederam também uma gargalhada. — Mas, segundo os meus espiões, estamos perante uma guerra, a qual me faz perder qualquer vontade de rir ou brincar! E receio pelas nossas vidas se a guerra diverte o nosso Príncipe!

Um pequeno pavio de vela incendiou-se instantaneamente: suaves sussurros começaram a incendiar o Salão, na sua maioria hesitantes, amedrontados… Contudo, o olhar de Malegor mantinha-se preso ao do Príncipe, numa batalha de vontades de aço.

— Silêncio! — gritou o Imperador, a sua voz austera surgindo como um bramido de fera. Um momento de silêncio submergiu o Cúria, uma maré de terror e reverência. — Devíeis ter vergonha, todos vós: ceder a vossa nobreza ao medo! Jamais um grupo de bárbaros imundos conseguiu enfrentar o Império e eu tenciono que essa tradição se mantenha! — continuou, o seu olhar cinzento parando sobre o Príncipe e Malegor. — A mensagem que chegou durante a manhã é, sem dúvida, preocupante: as Milícias Imperiais estão dispersas demais para fazer frente a um exército de vinte mil homens! Esses bárbaros já tomaram a cidadela de Samaria, perto da fronteira, e dizimaram todas as aldeias que encontraram pelo caminho! E ainda não enfrentaram qualquer resistência capaz de diminuir o tamanho das suas forças…

— E a que distância estão eles de Amarna, meu Senhor? — interrompeu um Senador, as suas mãos trémulas e o seu corpo em espasmos constantes. — E as Milícias?

— Dez míseros dias, Senador! Embora todas as Milícias Imperiais se dirijam para Amarna a toda a velocidade, jamais chegarão aqui antes que o sol se erga no céu doze vezes.

Como uma lágrima final de veneno na corrente sanguínea de uma vítima, aquelas palavras não foram mais que um catalizador do pânico generalizado. Nas veias senatoriais não corria o sangue dos primeiros Senadores, não corria o sangue guerreiro que fundara aquele Império, à lei da espada e da guerra; nas veias senatoriais corria apenas a sujidade política e as intrigas medíocres do poder!

— Estamos condenados! — gritaram várias vozes em uníssono.

— Meus Senhores, acalmai-vos! Existe uma hipótese algo desesperada, mas vivemos uma situação desesperada! — disse Malegor, elevando a sua voz acima dos vagidos amedrontados dos seus semelhantes. — Os Imperiais são mais que suficientes para eliminar esses bárbaros imundos… O meu Senhor concorda? — perguntou, olhando para o Príncipe.

— A Guarda Imperial já demonstrou que é um inimigo temível…

— Exactamente, meu Senhor! Qualquer inimigo do Imperador tem como primeira missão afastar os Imperiais do caminho… — continuou Malegor, um sorriso sarcástico delineado no rosto. — Porém, a missão dos Imperiais é avançar sobre essa estúpida horda de bárbaros e do seu sangue fazer a cor dos seus mantos! E essa missão necessita de liderança…

Palavra após palavra, passo atrás de passo, Malegor permitiu ao seu corpo caminhar até ao centro do Salão Senatorial, ficando próximo da tribuna onde o trono do Imperador ficava. O seu olhar dançava por todos as faces que encontrava no seu caminho, como se tentasse ver para além dos olhos espelhados dos Senadores.

— Seguindo tradição dos Antepassados, seria o próprio Imperador a liderar os Imperiais. Contudo, com o Apogeu tão próximo, seria um pecado insensato enviar o nosso Senhor para a guerra… Nas circunstâncias em que nos encontramos, existe apenas uma pessoa capaz de solicitar a missão para si…

— Não é preciso dizerdes mais, Senador — interrompeu o Imperador, elevando-se do seu trono majestosamente. — O meu filho será o comandante dessa missão e trazer-me-á o crânio do bárbaro nojento que lidera esse bando de animais sarnentos numa bandeja!

— Como quiserdes, meu Senhor! — disse Malegor, deixando escapar um sorriso uma vez mais. Depois, baixando a voz até esta não mais que um sussurro, ripostou: — Porque chegou o princípio do fim…


Posted at 12:42 pm by noonessoul
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Wednesday, March 31, 2004
2.º Capítulo — O Presságio da Tempestade

Os seus olhos abriram-se repentinamente, agitando-se frenéticos como se tentassem saber onde se encontravam e, por breves momentos, a sua visão perdeu-se no fulgor quente do sol, sem que conseguisse distinguir nenhuma das sombras que o rodeavam. Calmamente, sombras tornaram-se contornos imprecisos e estes foram-se transformando num quarto sujo, mobilado com uma velha cama de madeira e uma tosca cadeira onde jazia a pouca roupa que Jin-Odin despira para dormir. O tecto da divisão era apenas um amontoado de largas vigas de madeira suportando as fibras de colmo que constituiriam o telhado da habitação.

Lentamente, permitiu que os seus sentidos despertassem do torpor da noite, consentindo ao ambiente que o abraçava a invasão dolorosa da sua percepção. De repente, sentiu como tantas outras vezes antes daquela que o pulsar incessante do seu coração era o palpitar da essência do mundo, possibilitando-lhe sentir além da sensação… Por fim, habituando-se à infinidade consciências que o invadiam, fossem elas de seres vivos ou inanimados, levantou-se da cama, lavando o rosto numa bacia de água gelada que se encontrava encoberta pela penumbra, num canto da divisão. Depois vestiu-se, colocando a espada à cintura e, no antebraço, um pequeno punhal preso com tiras de couro, e saiu do quarto, descendo para o andar térreo da estalagem.

Os pensamentos da noite anterior estavam ainda presentes na sua memória, pois não havia mais que um segundo desde que adormecera, com excepção dos poucos momentos em que a sua mente deambulara no sonho e no pesadelo. Haviam esporeado as suas montadas durante grande parte da noite, estando a praia de onde tinham partido a uma grande distância daquele local: uma cidadela perdida nas montanhas do norte, cujo nome antigo fora há muito apagado das memórias eternas de todos os livros, mas à qual os Imperiais haviam chamado de Danian. E, tentando encontrar um local para pernoitar numa cidade em que até as corujas repousavam nas sombras da lua, haviam encontrado aquela estalagem abjecta e putrefacta, mas que, sem qualquer outra opção, servia os seus propósitos.

Enquanto descia as escadas para o salão da estalagem, Jin-Odin soltou um breve olhar por uma abertura na pedra angulosa da parede, possivelmente o esboço inacabado de uma janela: no exterior, nuvens escuras agoiravam uma tempestade, assim como o vento que diluía no ar o fumo cuspido por algumas chaminés mais madrugadoras. Devido à sua proximidade com as Terras dos Bárbaros, a norte, aquela região do Império era fustigada pelo clima agreste dessas terras impuras e estéreis. Lá, apenas os animais sobreviviam… Ainda assim, uns poucos raios de luz ainda conseguiam perfurar a barreira sombria de nuvens e anunciar o nascer da manhã, numa tentativa frustrada de ocultar os presságios de tempestade.

Apenas uma tocha iluminava o salão quando ele desceu as escadas, por fim. Uma multidão de sombras embebia a enorme divisão com os seus vagidos silenciosos, como se a escuridão encontrasse ali o último reduto para enfrentar a manhã que conquistava território. Porém, para além das sombras, nada mais existia que possuísse vontade própria, que tivesse vida… Mas, como aparências são somente ingénuas interpretações da realidade, também ali as aparências escondiam o verdadeiro rosto do mundo…

— Ainda bem que acordaste cedo… — murmurou Johad, emergindo da escuridão. — Não queria partir sem falar contigo uma última vez.

— Partir?

— Sim…

— Mas… mas porquê?

— Se os meus ossos ainda me dizem a verdade… — respondeu, afagando carinhosamente um colar com pequenas contas de osso branco. — Bem, a minha ajuda será necessária, porém não o será aqui! Tu tens o rapaz para te ajudar e eu… não posso renegar mais uma vez o meu povo, como fiz no passado!

— Johad, eu… eu pensei que ficavas… O teu povo…

— Sim, eu sei! Mas agora não se trata de uma simples guerra entre clãs, Jin-Odin… Tenho de regressar à minha terra, voltar a estar com aqueles com quem partilho sangue… Não posso renegar o meu povo por medo… Já perdi muito quando o fiz, há vinte anos…

— Tu não tens culpa da morte dos teus pais… nem sequer da morte da tua irmã!

— Talvez não… Mesmo assim, o Clã precisa de mim mais do que nunca e… eu preciso de regressar… enfrentar as sombras do passado!

— Do passado e do presente… — sussurrou Jin-Odin, como se profetizasse o futuro.

— E tu, velho amigo, cuida de ti… E do rapaz! Sabes bem como me é querido!

Jin-Odin anuiu, acenando com a cabeça afirmativamente.

— Que o vento sussurre o meu nome até ao meu regresso! — despediu-se Johad, deixando para trás o companheiro. Os seus olhos negros pousaram uma última vez em Jin-Odin antes do bárbaro trespassar a porta que conduzia ao exterior e, num gesto rápido, a sua mão escura agitou-se no ar, num aceno de despedida, num último adeus…

Jin-Odin permaneceu no salão vazio e imundo da estalagem. Os seus pensamentos fugiam, acompanhando inexplicavelmente o amigo. Por fim, quando Johad já galopava num cavalo  para longe da cidadela, a atenção do guerreiro focou-se no pequeno mundo em seu redor, nas pessoas daquela cidade e nas suas vidas insignificantes… Tal como nuvens sombrias cobriam o céu naquela manhã, também o destino daquela gente se adivinhava negro. Contudo, era sua missão evitar isso mesmo, evitar a destruição de Danian…

 

Niedros não conseguira dormir. Levantara-se, depois de se remexer num colchão de palha durante demasiado tempo, sem que conseguisse dormir, e, descendo as escadas até ao salão da estalagem, saíra para as ruelas da cidadela. O sol despontava tranquilamente da linha do horizonte, afastando suavemente a noite, embora se apressasse a esconder sob uma túnica de nuvens sombrias. O jovem vagueara absorto nos seus pensamentos durante toda a madrugada, observando a vida emergir do silêncio lentamente. Agora, entranhava-se numa amálgama de homens, mulheres e crianças correndo de um lugar para outro, numa agitação estranha e, por estranho que pudesse parecer, deliciosa aos sentidos apurados dele. Ali, concentrando-se um pouco, podia por em prática, ainda que apenas com o intuito de as treinar, todas as lições que o seu mestre, Jin-Odin, lhe dera durante os vinte e um anos da sua existência.

“Esvaziar o pensamento”, pensou ele, revivendo as mesmas palavras ritmadas na poderosa voz de Jin-Odin. “Concentra-te num só objectivo e persegue-o com todos os teus sentidos…” Contudo, ao embrenhar-se na multidão, a sua mente começou a ficar límpida, como se todos os constantes gritos e insultos que ele ouvia o impelissem a libertar a mente do desassossego ao qual já se habituara. A incessante busca por um ruído anormal ou por um grito era abafado ali e só ali, onde imensas sonoridades confluíam, ele obtinha descanso. Naquele momento, ele apenas queria relaxar, algo que imaginava ser muito difícil nos dias que se seguiriam…

Daquilo que observara da cidadela, Danian estava estratificada como uma típica guarnição militar: os campos de cultivo estavam situados no exterior da cidade, para além das muralhas externas; depois seguiam-se uma séria de ruelas apertadas e sufocantes, lar da zona habitável da cidade e lar dos comerciantes locais e onde rapidamente a Guarda Imperial poderia montar emboscadas a um exército inimigo; e, por fim, as muralhas interiores defendiam a sede do governo local, um palácio pouco luxuoso e já degradado, e os armazéns de alimento e água, sem menosprezar a presença do edifício que a Guarda Imperial tomara como aquartelamento. Contudo, um exército relativamente bem preparado seria capaz de, facilmente, furar por entre aquelas deterioradas protecções, como se um leão investisse contra um castelo de areia…

Os seus pensamentos deambulavam assim, perdidos num futuro que adivinhava inevitável. Todavia, bastou o simples timbrar de um assobio, por demais reconhecido pela sua memória, para que despertasse do entorpecimento da sua imaginação. Girou a cabeça, procurando saber onde se encontrava Jin-Odin, tentando perceber donde viera o assobio do velho guerreiro. As constantes movimentações da multidão dificultavam-lhe a tarefa, mas não demorou segundos para conseguir vislumbrar o rabo-de-cavalo já grisalho do seu mestre.

— Perdido? — sorriu Jin-Odin, falando calmamente. O sorriso desenhava-lhe na testa um leve traço enrugado, uma ruga que o acompanhava havia tanto tempo, numa vida que parecia interminável. — Acordaste cedo… Mas ainda bem que assim foi porque um segundo perdido pode muito bem condenar-nos a todos! — continuou, perdendo a alegria esboçada no rosto.

— Sim, tens razão! Mas vai ser complicado defender a cidadela… Principalmente contra tão grande poderia militar como o dos bárbaros… — revelou Niedros, uma expressão rígida no seu rosto quase pueril. — Agora que falo nisto… Encontrei-me com o Johad esta manhã… Disse que ia partir, que nos ia ajudar de uma forma… de uma forma que mais ninguém podia! Isto faz algum sentido, Jin-Odin?

— Mais do que pensas… Mas isso agora não é importante! — retorquiu o guerreiro, como se tentasse evitar uma resposta. — Segue-me, o tempo começa a escassear! A tempestade cai sobre nós esta noite!

Embrenharam-se no labirinto de pessoas sem trocarem qualquer palavra, como sempre acontecia: o mestre tomava as decisões, o pupilo acatava-as sem hesitar. Após vinte anos de treino constante, Jin-Odin continuava a encontrar em Niedros um aluno indisciplinado e tendenciosamente caído na imprevisibilidade enquanto que o jovem encontrava no seu professor um velho guerreiro que castrava o livre arbítrio do seu aluno. Amavam-se como um pai a um filho e como um filho a um pai, mas as suas personalidades e atitudes diante do mundo divergiam demasiado entre si.

O número de soldados que encontravam pelo caminho aumentava radicalmente a cada minuto que passava. E as suas expressões faciais, normalmente descontraídas, mostravam um medo, um receio que nenhum militar deveria envergar face a quem protegia ou intimidava.

— Eles já sabem! — Não fora mais que um murmúrio, mas Niedros sabia ao que o seu mestre se referia. Um colossal exército de Jinai, ou bárbaros como aquela gente chamava a esse povo de pele escura, dirigia-se para Danian com um único intuito em mente: matar, chacinar, queimar, violar, destruir… O terror, o pânico dos milicianos era palpável na ar, mas a gente comum parecia não reparar, concentrados nas suas difíceis vidas. — Rápido, o tempo está contra nós — sussurrou novamente Jin-Odin, começando a furar a multidão com pouca delicadeza. Atrás dele, movimentando-se pelos espaços criados dentre a multidão pela pressa do seu mestre, Niedros deixou para trás o relaxamento que obtivera durante algum tempo: os seus sentidos estavam completamente alerta, detectando qualquer pequeno sussurro ou até o chiar inaudível de uma minúscula ratazana…

Não olharam para os rostos que passavam por eles, igualmente apressados, nem tão pouco para o ambiente que os rodeava. Apenas os impulsos os faziam avançar, sempre com um mesmo objectivo em mente, a velho palácio da cidadela, tendo percorrido esse caminho num passo acelerado. Subitamente, quando estavam já muito próximos do danificado edifício, um som ribombante ecoou vindo do nada, fazendo o ar vibrar por toda a cidadela.

— Estão a pedir ajuda… — gritou Niedros, sem abrandar o passo.

— Não valerá de nada! Eles apenas podem contar consigo próprios… e connosco!

Entretanto, haviam alcançado o edifício palaciano. Erguendo-se em dois andares visíveis, o palácio mostrava os sinais da longa passagem do tempo nas suas paredes desgastadas, assim como o mostravam a cal amarelecida que cobria essas paredes. Com excepção disso, somente um gigantesco e reluzente escudo de prata, com um leão em ouro embutido, mostrava a vida renovada daquele local, informando quem ousasse duvidar que aquelas terras pertenciam ao Império do Éden. As janelas, não mais que simples falhas verticais e extremamente estreitas na construção do edifício, não haviam sido envidraçadas, estando apenas um gradeamento em ferro no seu local. O portão de entrada, uma enorme portada de ferro grossa como o braço de dois homens adultos, era guardado por dois soldados, cada um deles erguendo o traje oficial da Guarda Imperial, os tons negros e prateados colorindo a manhã sombria… Eram apenas a última barreira entre Jin-Odin e a salvação de um lugar condenado à destruição!

— Precisamos falar com o Capitão!

— O Capitão Nasril está ocupado neste momento, estrangeiro — respondeu um soldado ao velho mestre, perspicazmente sondando o sotaque de Jin-Odin. — Não ouviste as Vozes sem Medo? — perguntou em seguida, referindo-se ao grito de socorro das trompas.

— Sim, e é por isso que temos que falar com o… Capitão Nasril!

— Vão-me desculpar, estrangeiros, mas o Capitão não vos pode receber!

As nuvens negras acumulavam-se no céu, prestes a desencadear uma tempestade, perversa em amplitude e atemorizante em aspecto. Os raios de luz solar eram uma mera recordação de uma manhã esplendorosa, a cada momento que passava e, anunciando a desgraça, os vagidos ululantes do vento ganhavam força e altivez enquanto se passeavam pelas vielas assombradas da cidadela.

— Soldado… — começou Jin-Odin, retirando um minúsculo e brilhante anel, que mesmo uma criança teria dificuldade em usar, do interior da sua capa. Aí, incrustado na própria prata que constituía o anel, um leão dourado rugia feroz, como se quisesse amedrontar todos os que ameaçavam aquilo que simbolizava… — Sabes o que isto é?

— Isso é… isso é… — gaguejou o rapaz, nervoso.

— Sim, soldado, um Anel do Imperador… O sinal dos Enviados do Imperador!

Rapidamente, sem que tivesse sequer tempo para reflectir no seu acto, o rapaz encaminhou os dois guerreiros para o interior do degradado palácio. Subiram primeiro uma escadaria que levava ao primeiro andar, virando depois à direita para um corredor. Até aí, todas as paredes estavam decoradas com lanças e espadas de batalha, mas, nesse corredor, as paredes eram só uma extensão de pedra caiada, sem qualquer decoração. Por fim, encontraram uma porta com pequenos burilados na madeira, diante da qual pararam.

— Senhor, estão aqui dois… mensageiros que desejam falar consigo! — avisou o soldado, após acariciar suavemente a porta com o punho cerrado.

— Eles que entrem… — respondeu uma voz no interior, grossa e poderosa, vibrando com autoridade.

O soldado abriu a porta e retirou-se, provavelmente regressando ao seu posto. No interior, a pequena divisão era apenas constituída por uma simples mesa e algumas cadeiras, sendo o mobiliário talhado em madeira carcomida pelo tempo e pelo uso. Numa dessas cadeiras, um homem alto e robusto examinava minuciosamente um mapa traçado em pergaminho enquanto exalava fumo prateado por longo cachimbo. O cabelo negro estava cortado muito curto e as maçãs do rosto eram ilhas ligeiramente rosadas num mar de pele morena. O homem pareceu não reparar em Jin-Odin ou em Niedros, mas, passados poucos segundos, ergueu a sua cabeça e fitou os dois guerreiros, sem dizer nada.

— Não tenho muito tempo… Que querem vocês? — perguntou, por fim.

— Capitão Nasril, certo? Bem… já preparou as defesas da cidadela, Capitão?

O homem fixou ainda mais o olhar em Jin-Odin, como se procurasse descobrir os segredos mais íntimos do velho mestre. Depois, levantou-se, ainda sem esboçar qualquer palavra, e os seus passos levaram-no até aos dois companheiros.

— Quem são vocês?

— Porque perder tempo com explicações, Nasril? Os bárbaros chegam esta noite… Ainda há muito a fazer se realmente queremos defender esta cidade!

— Ninguém, com excepção de mim e dos meus homens, sabe da investida bárbara! Eu não tenciono repetir: quem são vocês? — O tom de voz do militar ergueu-se no limiar de um grito e uma chama de ferocidade inflamou-lhe o olhar.

— Não sei porque te preocupas em salvar esta gente, Jin-Odin! Tentamos ajudar e apenas recebemos ameaças e insultos! — gritou Niedros, retribuindo a arrogância do olhar ao militar, enfrentando-o sem medo. — Vamos embora… — continuou, virando costas.

— Espera, rapaz… Peço desculpa!

Um momento de silêncio invadiu a divisão, dissolvendo a tensão que se gerara.

— Mas não tenho muito tempo a perder. Não interessa quem são nem como descobriram a chegada eminente do exército bárbaro… Tudo bem! Mas, assim sendo, o que vieram fazer… O que vieram fazer aqui?

— Oferecer ajuda — respondeu calmamente Jin-Odin. — Existem hipóteses de vencer um exército com o poderio do que avança sobre nós… Mas é preciso apressarmo-nos!

— Muito bem… E, desculpem-me insistir, quem são vocês…

— Isto bastará por enquanto… — interrompeu Jin-Odin, mostrando o Anel do Imperador brilhando na palma da sua mão. — Nós estamos aqui para ajudar, isso terá de ser suficiente!

— Muito bem! — repetiu Nasril. — E que sugerem para defender a cidadela?

— Coisas simples… — informou o velho guerreiro. — Convocar todos os que possam ter capacidades para defender a cidade e… e esperar que a Deusa nos abençoe com a sua graça!


Posted at 07:16 am by noonessoul
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Saturday, April 03, 2004
3.º Capítulo — A Queda das Máscaras

— Observai-los, Malegor… Observai os seus derradeiros movimentos, antes de terem o encontro inevitável com a morte!

Do varandim da mansão era possível velar os soldados da Guarda Imperial, todos com o traje de combate enegrecido e a prata brilhante de um leão nos seus escudos. A pequena praça onde eles se amontoavam tornara-se o ponto de encontro de famílias de militares e de simples curiosos, incapazes de resistir a um sentimento pessimista de derrota. No meio de todos aqueles milicianos, elevando-se numa montada de pelagem acastanhada, o líder daquele exército de homens vigorosos e altivos, o Príncipe Herdeiro do Império, gritava a todos ordens sem cessar, enquanto o seu nome de nascimento, Irumil, ecoava de boca em boca.

— Malegor, vede como eles o amam, como o idolatram! Mesmo sabendo que não vão regressar a suas casas, deixados a apodrecer no campo de batalha, eles acreditam nas suas palavras… Pobres idiotas! — escarneceu ele, olhando para os soldados e para Irumil com o desdém com o qual se observam meros insectos. Os seus lábios delinearam um esgar de prazer, como se a imagem dos corpos dilacerados dos militares lhe fossem aprazíveis. As mãos níveas apoiavam-se no parapeito da varanda, enquanto o seu olhar negro eternizava um medo inexplicável no seu companheiro, Malegor… — Dizei-me, Senador, tenhais um tão grande temor da minha pessoa? Mesmo ontem, quando nos encontramos naquela casa pútrida, os vossos olhos vos haviam traído…

— Que quereis dizer com isso, Lorde Caine?

— Esquecei esse título imundo! O meu nome é Caine, Senador, e temi que vos havíeis esquecido dele… Ontem não o havias mencionado… Mas esqueçamos isso! — concluiu ele, usufruindo do deleite que sentia por aterrorizar aquele personagem desprezível. Não havia motivos para não torturar alguém que estava fadado a morrer… — Levai-me até ao Príncipe, desejo divertir-me um pouco mais! Tornai-vos enfadonho em pouco tempo! — pediu.

Deixaram o varandim para trás, entrando no estúdio da mansão de Malegor. Um novo quadro ornamentava as paredes da divisão: o corpo desnudo de uma rapariga e uma suave linha de rubro sangue deslizando através do seu corpo perfeito. Contigua a essa pintura, uma outra ocupava um lugar destacado no estúdio, talvez ainda mais sórdida e macabra que a antecessora: os corpos seminus de duas raparigas, trocando carinhosos ósculos entre si, banhavam-se numa lagoa de cor escarlate, provavelmente uma laguna de sangue ainda quente e adocicada pelo sabor férrico…

Não se demoraram segundos no estúdio, seguindo pelos corredores irradiados pela luz cintilante do sol. Depois, descendo um lance de escadas, enfrentaram a entrada principal da sumptuosa mansão de Malegor, trespassando-a em seguida e entrando num magnífico coche que se encontrava no exterior. Dali, dando rispidamente uma ordem ao cocheiro, a carruagem partiu a galope, chegando rapidamente à Praça Angelical.

Uma infinidade de pessoas confluía naquele lugar, mas o uniforme negro dos soldados era predominante. Todos rodeavam a grande estátua no centro da praça, a colossal figura de um anjo talhado em rocha negra, abrindo as suas asas firmemente e esboçando na face uma expressão resoluta e cruel. Aquela obra da perfeição não fora criada pelos Imperiais, mas sim pelas mãos dos Antigos, também eles construtores da cidadela de Amarna, num passado do qual nem os mais sábios guardavam memórias.

— As sombras do passado… — sussurrou Caine, enquanto a berlinda circunscrevia a praça, as pessoas que ali se amontoavam e a beleza estonteante da estátua. Em segundos, o coche já se aproximara o suficiente do garanhão de Irumil, permitindo aos dois homens caminharem sem interferência até ao Príncipe. O olhar prateado do jovem incendiava-se em orgulho, o orgulho da juventude que a velhice insiste em desvanecer.

— Meu Senhor, apresento-vos Lorde Caine… — indicou Malegor, temendo um olhar fulminante de Caine. Contudo, esse medo provou ser infundado, pois as pupilas negras de Caine centravam-se apenas em Irumil, como se tentassem mergulhar no inconsciente dos pensamentos do Príncipe.

— É uma honra conhecer-vos, Príncipe Irumil… — disse Caine, espalhando o veneno dos seus lábios e a perfídia de uma forma subtil, como uma serpente caça a sua presa. — Mas dizei-me, meu Senhor, confiais mesmo numa vitória contra esses… esses bárbaros imundos?

— Meu Senhor, jamais um bando de selvagens conseguirá amedrontar o Império! Nós somos superiores a esse povo, se tal é possível chamar a um grupo de animais! — disse o Príncipe em resposta.

“O teu sangue ainda fervilha com a altivez dos Antigos… É triste que os nossos trilhos se tenham cruzado desta maneira, pois poderias ser um discípulo como Malegor nunca na sua miserável existência poderá ser!”, pensou Caine, relembrando memórias de homens com a ferocidade de bestas e a inteligência dos Deuses… memórias de outras vidas, ou a memória de uma só existência prolongada em demasia…

— Bem, meus Senhores, temo que nos tenhamos de despedir! O tempo urge e muito é o caminho que ainda tenho de percorrer… — continuou Irumil, deixando escapar sorrisos de circunstância. — E que a Deusa nos abençoe com a sua graça!

— Como desejardes, meu Senhor. — responderam, em uníssono, Caine e Malegor. Os dois, sem perder tempo, regressaram ao coche, sem trocarem qualquer palavra entre si.

Com uma ordem rápida, pouco mais de uma centena de homens subiram para as celas dos cavalos diante deles, num movimento semelhante a uma sombra negra em acção. Em poucos minutos, todos eles marchavam para o exterior da cidadela, em trote acelerado do qual passaram a um galope apressado logo que atravessaram os portões de Amarna.

Enquanto o exército progredia pelas planícies e bosques a norte da cidadela, o coche já rumava para o topo da cidade, onde as belas mansões senatoriais e os palacetes imperiais se situavam. O caminho estava a ser mais lento, a menor velocidade, mais propício a uma reflexão calma e silenciosa…

— Ouvi-me com atenção, Malegor… Deveis proteger-vos das surpresas que este rapaz ainda vos possa trazer! — aconselhou Caine, quebrando o silêncio no interior da berlinda quando esta já caminhava pelas ruas faustosas próximas à mansão de Malegor. — Estais numa posição muito delicada, neste momento! Se fizerdes o que pretendes fazer, tereis de precaver-vos contra tudo o que possa acontecer! Sois apenas uma peça de um jogo muito perigoso, Malegor… Desenhai uma jogada em falso e podeis deitar tudo a perder!

— Não posso desistir agora… Não agora, quando estou a poucas horas de…

— Calai-vos! O vento poderia semear as vossas palavras pelos ouvidos dos mais impuros! Não vos denuncieis quando ainda não é necessário! — avisou Caine, lançando um olhar para o cocheiro. — Depressa, cocheiro, estamos ansiosos por regressar a casa!

Não falaram mais até que, passados poucos minutos, voltaram ao casarão do Senador. Não perderam muito tempo na entrada da casa, regressando ao estúdio no primeiro andar da casa. Aí, com um cálice de vinho na mão, sentaram-se.

— Não me posso demorar aqui, Malegor! Sinto os ventos do norte chamarem por mim!

— Então permiti-me uma última pergunta. — pediu o Senador, sendo tal desejo concedido com um leve acenar de cabeça de Caine. — Quem sois vós?

— Que pergunta idiota, Malegor! Sou Caine…

— Não fugis à pergunta… Quem sois realmente? Quais os vossos motivos para desejardes tanto mal ao Éden? Como conseguistes o apoio dos bárbaros?

— Meu pequeno Malegor, sois ainda tão insignificante para saberdes a verdade! Pedis-ma como se ela vos fosse revelar o meu pequeno mundo oculto… Aprendei uma coisa, Malegor: não é nossa função descobrir a verdade, ela apenas se revela para uns poucos, para os seus… para uns seus escolhidos! E, meu insignificante Malegor, a verdade é apenas a maior mentira de todas! Bastai-vos perceber isso, pouco mais importa! Não desejeis conhecer a verdade nem aquilo que se esconde para além dela, porque é uma dádiva e uma maldição que não desejo a ninguém, nem àqueles que mais odeio… — confessou Caine, bebericando um gole de vinho. Depois, levantando-se sem dizer mais nada, pousou o cálice na secretária talhada em madeira de faia e, sem se despedir, saiu do estúdio, deixando um perplexo Senador sozinho…

 

No topo da colina que servia de alicerce à cidadela, apenas existiam luzes numa mansão: na casa do Senador Malegor. O som puro de um cravo surgia das frestas invisíveis das janelas da habitação, entoando uma melodia com um misto de desespero, loucura e alegria sarcástica. Sentado frente ao instrumento, Malegor chorava, cada lágrima parecendo uma gota de chuva nos vidros transparentes da sua casa, e chorava em desespero, loucura e alegria sarcástica. Era noite, finalmente, e seria para sempre noite, mesmo que o sol se erguesse no horizonte… Sim, porque todas as alianças têm um preço e Malegor sabia demasiadamente bem qual o preço da sua aliança com Caine… Em breve, todos o saberiam…

Subitamente, os sinos da Cúria começaram a cantar, como se chamassem alguém. E, como se acedesse ao impaciente apelo, Malegor deixou as teclas do instrumento e, mecanicamente, ergueu-se do banco revestido a feltro, pegando numa espada brilhante que jazia sobre o cravo. Dirigiu-se para a entrada de sua casa suavemente, sem requisitar ajuda de qualquer escravo, e colocou sobre os ombros uma capa para o proteger da chuva, saindo sem pressa pela portada.

Silêncio, apenas silêncio em toda a cidade. Apenas as gotas de chuva, incapazes de calar o seu choro, sussurravam harmoniosamente, deixando a cidadela entregue às sombras… E elas surgiam em todos os cantos, iguais entre si, transportando a mesmo capa negra para protecção contra a incessante chuva e a mesma espada brilhante, capaz de deslizar sobre a carne viva. E, entre essas sombras perversas, caminhava Malegor, silencioso como todas as outras sombras, pois apenas a chuva e as sinetas da Cúria poderiam cantar naquela noite… Somente elas e as gotas escarlates do sangue do Imperador!

Ao fim de algum tempo, um grande aglomerado de homens marchavam junto a Malegor, o seu objectivo o mesmo do Senador… Avançavam serenamente, banhando-se na chuva a cada passo, sempre em direcção ao Palácio Imperial, não sendo precisos muitos minutos para que os portões prateados do palacete fossem avistados. Sem qualquer guarnição a patrulhá-los, as sombras invadiram facilmente os corredores de marfim do palácio.

— Procurem-no, mas não o matem! — ordenou Malegor aos seus semelhantes. A colossal sombra, em poucos instantes, dividiu-se em inúmeros braços, assemelhando-se a um monstro fantasioso tentando capturar a sua presa.

Sozinho, Malegor avançou até aos aposentos do Imperador, onde imaginava que a vítima do seu plano estivesse a repousar. Caminhava confiante, emanando orgulho e arrogância sem para tal precisar de se esforçar, como o haviam feito, muitos séculos antes, os Antigos. Era o espírito desses antepassados que Malegor queria restaurar ao Éden, mas, simultaneamente, os seus planos garantiam-lhe outro prazer, um verdadeiro prazer divino: a vingança!

Chegara ao quarto do Imperador. No interior, apenas silêncio. Sem pensar, desembainhou a espada e, rodando suavemente a maçaneta, entrou.

Escuridão, escuridão total… Quando os seus olhos se habitaram às sombras do quarto, foi possível distinguir uma grande cama em dossel e todas as outras peças de mobiliário daquela divisão. Contudo, o volume sobre a cama denunciava a presa de Malegor. Ali estava ele, só e sem qualquer possibilidade de defesa… Seria tão simples matar o seu pai, matar o Imperador! Continuou a avançar até à cama, erguendo lentamente a lâmina da espada acima da cabeça: o golpe seria rápido e fatal…

Subitamente, sentiu o seu espírito abandonar o seu corpo, como se retirado por uma força estranha. Quando reabriu os olhos, que fechara durante a inexplicável sensação, estava sobre o chão negro de um cubículo sombrio, onde apenas uma minúscula linha de luz conseguia, de algum modo estranho e imperceptível, entrar. Em toda aquela escuridão, somente um objecto era visível: uma estatueta com pouco menos de três palmos de altura. Representava um corpo de mulher, um corpo repleto de beleza e perfeição… Contudo, quando os olhos de Malegor a observaram bem, surpreenderam-se com a ausência de rosto, o qual era substituído por uma superfície lisa, não demonstrando qualquer imperfeição. Quando, desesperado por encontrar a saída daquele local, se preparava para pontapear a estátua, a voz harmoniosa e meiga de uma mulher começou a falar-lhe, suavemente:

— Desejas mesmo fazer isso, meu querido Malegor? Queres mesmo matar o teu pai ou até conspirar a morte do teu irmão?

Malegor olhou para a estátua e, para sua perplexidade, a mão direita da figura de pedra não se encontrava onde deveria, mas movera-se para a frente do rosto liso, segurando a máscara de um rosto feminino, muito belo e de feições ternas. O olhar era doce, como o olhar da mãe para o seu filho… Porém, num simples piscar de olhos, a mão esquerda também se moveu na direcção da face sem feições da estatueta e, sobrepondo-se à primeira mascarilha, trouxe uma segunda máscara, diametralmente oposta à sua antecessora. A mão esquerda trouxera consigo um rosto horrível, demasiado cruel e sedento de destruição… E, tal como a primeira fizera, a segunda também desejou dizer algo a Malegor:

— Vinga-te, Malegor… Liberta a tua raiva, o teu ódio e vinga-te dele! Trespassa-o com a tua espada, meu querido Malegor, como ele ordenou que fizessem com a tua mãe! — gritou a segunda voz, vibrando num tom áspero e cruel.

E, como desperto de um pesadelo infantil, voltou abruptamente a entrar no seu corpo. Não deixara de segurar a espada, estando a lâmina preparada para desferir um golpe fatal; ainda se encontrava nas câmaras do imperador, desse animal que engravidara a sua pobre mãe e que, sem qualquer piedade, a mandara matar quando a soube grávida; ainda pulsava dentro de si o desejo de acabar com aquela vida nojenta, a vida de um homem que sempre receara tudo! Era ali, naquele momento, que tudo iria terminar e um novo começo seria escrito…

A espada desceu sobre o corpo inerte, perfurando lençol e carne num mesmo impulso. Não temeu repetir o gesto e, por mais de dez vezes, a lâmina da espada encheu-se de sangue e em todas elas as mortalhas brancas que envolviam o corpo não serviram de protecção à morte do Imperador… Sem pensar, Malegor dobrou-se sobre o corpo e ali ficou, observando-o por um tempo que pareceu infinito. Depois, lançando a mão até à coroa que jazia sobre uma mesinha junto da cama, colocou-a no cimo da cabeça, como se se coroasse a si mesmo…

— Vês, Talath… — murmurou para o vazio. — Ninguém me impediu… — continuou, os seus olhos brilhando em excitação. — Nem mesmo aquelas vozes dentro da minha cabeça me conseguiram impedir… — disse, satisfeito de tal modo que soltou uma gargalhada. — Sabes? Só tu me compreendes, Talath! Só tu! Só tu sabes… Porque eu consegui, eu consegui! É meu, o mundo é meu… O Éden é meu, é tudo meu! E ninguém, ninguém pode mudar isso porque, porque eu sou o Imperador! Sim, eu sou o Imperador… — continuou, a sua voz tremendo em excitação macabra e em nervosismo louco…


Posted at 10:33 pm by noonessoul
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